Impactos do próximo El Niño nos preços de energia

Impactos do próximo El Niño nos preços de energia

Abel Holtz e Carlos Alberto Schoeps

As projeções climáticas divulgadas por instituições como a Organização Meteorológica Mundial (WMO), a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) e os centros de monitoramento brasileiros, como o CPTEC/INPE, indicam uma probabilidade crescente de formação de um episódio de El Niño nos próximos meses. Embora ainda exista elevada incerteza quanto à intensidade, duração e distribuição espacial dos seus efeitos, esse cenário poderá influenciar de forma significativa a operação do Sistema Interligado Nacional (SIN) ao longo de 2027.

Caso as projeções se confirmem, o fenômeno poderá alterar o regime de precipitações em importantes bacias hidrográficas brasileiras, reduzindo as afluências aos reservatórios das usinas hidrelétricas, especialmente nas regiões Norte e Nordeste e, em determinados períodos, também no Sudeste. Como a geração hidrelétrica continua sendo o principal recurso de flexibilidade da matriz elétrica nacional, uma deterioração das condições hidrológicas poderá exigir uma gestão mais conservadora dos reservatórios e um planejamento operacional mais rigoroso por parte do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Nesse contexto, torna-se provável uma intensificação do despacho de usinas termelétricas para preservar os níveis de armazenamento e assegurar a confiabilidade do atendimento. Como essas usinas, em geral, apresentam custo variável superior ao das hidrelétricas e das fontes renováveis, sua maior utilização poderá elevar o custo marginal de operação do sistema. Dependendo da evolução do fenômeno climático, da disponibilidade das demais fontes de geração e das regras regulatórias vigentes, esse aumento de custos poderá ser refletido nos preços de energia no mercado livre e, posteriormente, nas tarifas pagas pelos consumidores.

Sob a ótica do mercado, um cenário hidrológico mais restritivo tende a aumentar a percepção de risco dos agentes, elevando a volatilidade tanto do mercado de curto prazo quanto das negociações de contratos futuros. Caso as afluências fiquem abaixo das expectativas atualmente consideradas pelos modelos de planejamento, o PLD poderá responder de forma mais intensa às revisões do Programa Mensal de Operação (PMO), às atualizações dos modelos computacionais de otimização energética e às mudanças nas premissas hidrológicas utilizadas pelo ONS e pela CCEE.

Da mesma forma, contratos de fornecimento para 2027 e 2028 poderão incorporar prêmios de risco mais elevados, refletindo a maior probabilidade de despacho térmico, o aumento esperado do custo marginal de operação e a incerteza quanto à evolução das condições hidrológicas. Embora a trajetória dos preços continue dependendo, entre outros fatores, crescimento da carga e comportamento efetivo do clima, é razoável esperar um ambiente de mercado mais volátil, com revisões frequentes das expectativas de preços.

Ao mesmo tempo, a expansão da geração renovável observada nos últimos anos poderá contribuir para mitigar parte desses impactos. Na avaliação de diversos especialistas, caso o El Niño se confirme, a geração eólica poderá assumir papel relevante na operação do sistema, especialmente se houver complementaridade entre os regimes de vento e a redução da geração hidrelétrica. Também existe a possibilidade de diminuição dos cortes de geração renovável (curtailment), principalmente na Região Nordeste, caso a necessidade de despacho aumente e permita maior absorção da energia atualmente restringida por limitações operacionais ou de transmissão. Esse efeito dependerá das condições meteorológicas efetivamente observadas, da disponibilidade da rede elétrica e da configuração operacional do sistema em cada período.

Para consumidores livres, comercializadores e demais agentes do mercado, esse cenário reforça a importância de uma gestão ativa da exposição contratual e dos riscos de mercado. O acompanhamento contínuo das condições hidrológicas, dos indicadores operacionais do SIN, das revisões do PMO e da evolução dos preços futuros deverá ganhar ainda mais relevância na definição das estratégias de contratação e de proteção financeira. Em um ambiente de maior incerteza, decisões fundamentadas em análises técnicas, monitoramento permanente do mercado e avaliação criteriosa dos riscos tendem a representar um importante diferencial competitivo, permitindo reduzir exposições desnecessárias e identificar oportunidades de contratação em momentos mais favoráveis.

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