Hidrelétricas Reversíveis: a nova aposta para garantir energia no Brasil
Abel Holtz e Carlos Alberto Schoeps
A discussão sobre a contratação de usinas hidrelétricas reversíveis (UHRs) representa um passo na diversificação de soluções no planejamento elétrico brasileiro. Tecnicamente, se trata de estruturar sistemas de armazenamento hidráulico capazes de deslocar energia no tempo. A eletricidade excedente em horas de baixo valor é usada para bombear água para um reservatório superior, que depois é turbinada quando o sistema precisa de potência, flexibilidade e energia firme.
Essas usinas podem ser de ciclo aberto, quando se conectam a reservatórios ou cursos d’água existentes, ou de ciclo fechado, com reservatórios dedicados e menor interação hidrológica externa. Trata-se de uma tecnologia madura, com eficiência de ciclo tipicamente na faixa de 70% a 87%, e com capacidade de entregar arbitragem energética, serviços ancilares, controle de frequência, reserva, inércia e confiabilidade do sistema.
A experiência internacional mostra que essa solução a ser tratada como infraestrutura estratégica para sistemas com alta participação de eólica e solar. A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que as adições anuais globais de bombeamento reversível devem dobrar até 2030, impulsionadas justamente pela necessidade de flexibilidade e armazenamento de maior duração, com a China liderando mais de 60% do crescimento mundial no período. Nos Estados Unidos, as reversíveis seguem sendo a espinha dorsal do armazenamento. O país tem 43 plantas, cerca de 553 GWh de capacidade armazenável, e elas responderam por 96% da capacidade utility-scale de armazenamento em 2022. Na Austrália, o projeto Snowy 2.0 foi concebido para agregar 2.200 MW e 350.000 MWh de armazenamento, com a promessa de reduzir volatilidade de preços e reforçar a confiabilidade do sistema à medida que as renováveis aumentam.
No caso brasileiro, a adoção de UHRs faz sentido técnico. O argumento mais forte a favor dessa tecnologia é que o país está migrando para uma matriz com maior participação de fontes renováveis variáveis, ao mesmo tempo em que perdeu capacidade relativa de regularização com grandes reservatórios novos. A própria EPE já trata as UHRs como alternativa para o SIN, destacando seu papel no armazenamento de energia e no atendimento a novos requisitos de capacidade e flexibilidade.
No PNE 2055, a EPE classifica as reversíveis como alternativa estratégica para mitigar a variabilidade de eólicas e solares. Inventário efetuado no Rio de Janeiro, identificou 23 locais adequados, dos quais 15 foram selecionados para pré-dimensionamento, somando cerca de 21 GW de potencial. O Brasil deve adotar essa solução de forma seletiva, competitiva e coordenada com baterias, resposta da demanda, reforços de transmissão e repotenciação de usinas hidrelétricas. O maior valor das reversíveis está em entregar potência renovável despachável em horários críticos, especialmente no fim da tarde, à noite e em situações de estresse operativo.
As vantagens são relevantes: vida útil longa, grande escala, baixa degradação tecnológica, capacidade de armazenamento por muitas horas ou dias, prestação de múltiplos serviços elétricos e possibilidade de reduzir despacho térmico mais caro. Além disso, arranjos que aproveitem reservatórios existentes ou soluções de ciclo fechado podem reduzir impactos em comparação com novas grandes hidrelétricas convencionais.
Por outro lado, também apresentam riscos. São empreendimentos intensivos em capital, com obras civis complexas, longos prazos de implantação, desafios de licenciamento e dependência de um modelo regulatório que remunere adequadamente seus vários atributos. O caso australiano é ilustrativo: embora o Snowy 2.0 seja estratégico, seu custo estimado é US$ 12 bilhões australianos e a entrada em operação comercial integral foi postergada para 2028, refletindo problemas de projeto, geologia, suprimentos e inflação. Nos EUA, por sua vez, há grande base instalada e muitos projetos em desenvolvimento, mas ainda com dificuldade de converter pipeline em obras efetivas, o que reforça que tecnologia madura não dispensa desenho de mercado adequado.
A hidrelétrica reversível tende a se tornar uma peça importante da expansão de armazenamento de longa duração. O Brasil deve tirar lições da experiência internacional. Onde houve clareza regulatória e valorização da flexibilidade, os projetos avançaram. Onde faltou remuneração adequada ou os riscos de implantação ficaram mal distribuídos, os investimentos ficaram mais lentos ou mais caros. Para o Brasil, a melhor estratégia é tratar as UHRs como ativo de capacidade, flexibilidade e segurança energética, priorizando locais com menor impacto socioambiental, forte valor sistêmico e integração com a infraestrutura hidrelétrica já existente.