Estamos usando energia da forma errada
Abel Holtz e Carlos Alberto Schoeps
O setor elétrico brasileiro tem uma oportunidade relevante de aumentar a eficiência do uso das redes de transmissão e distribuição sem depender apenas de novos investimentos em expansão física. Uma parte importante dessa oportunidade está na melhor coordenação entre perfil de geração e perfil de consumo. Hoje, a geração fotovoltaica concentra sua produção nas horas centrais do dia, enquanto a geração eólica, em muitos momentos, apresenta maior disponibilidade em horários noturnos ou de menor carga. Quando a demanda não acompanha essa oferta, surgem excedentes de energia, redução do valor econômico da produção e uso ineficiente da infraestrutura já instalada. Em vez de tratar esse descompasso apenas como um problema operacional, é possível enxergá-lo como uma oportunidade para elevar o fator de utilização das redes e reduzir custos sistêmicos.
Nesse contexto, a resposta da demanda passa a ser um bom instrumento. Em termos simples, trata-se de criar condições para que parte do consumo se desloque para os horários em que há maior oferta e menor custo marginal da energia. Isso pode ocorrer por meio de sinais de preço, contratos específicos ou mecanismos regulatórios que incentivem consumidores a aumentar ou reduzir carga conforme a necessidade do sistema. O ganho é duplo: de um lado, melhora-se o aproveitamento da geração renovável, especialmente da solar ao meio do dia; de outro, reduz-se a ociosidade da rede e o desperdício econômico associado a períodos de excesso de oferta. A lógica é semelhante à de qualquer sistema industrial: quando há capacidade disponível e insumo abundante, vale a pena direcionar o consumo para esses momentos.
Uma aplicação especialmente promissora dessa lógica é a criação de cargas interruptíveis ou flexíveis, capazes de operar preferencialmente quando houver excedentes de energia. Processos industriais adaptáveis, centros de processamento de dados, produção de hidrogênio, bombeamento de água, refrigeração, eletrotermia e outras cargas com alguma elasticidade operacional podem desempenhar esse papel. Essas cargas poderiam absorver excedentes de geração fotovoltaica e aproveitar momentos de menor demanda e elevada produção eólica. Para isso, o ambiente regulatório precisa evoluir para permitir contratos mais dinâmicos, tarifas horárias mais eficientes e mecanismos que remunerem não apenas o consumo, mas a flexibilidade prestada ao sistema. O objetivo é permitir que o preço reflita melhor a realidade elétrica de cada horário.
Outro ponto importante é a localização dessas cargas. Em um sistema com diferenças regionais relevantes de oferta, faz sentido estimular a instalação de novos consumos em áreas com maior disponibilidade de geração e menores restrições de escoamento. Tarifas locacionais mais baixas, associadas a sinais econômicos coerentes, podem incentivar a atração de cargas para regiões onde há energia abundante e infraestrutura subutilizada. Isso melhora o uso dos ativos já existentes, reduz a necessidade de reforços prematuros em áreas saturadas e cria um círculo virtuoso entre expansão da demanda, desenvolvimento regional e aproveitamento mais racional da oferta. Trata-se de consumir no lugar e no horário em que esse consumo agrega mais valor ao sistema.
A combinação entre resposta da demanda, cargas interruptíveis, sinal locacional e melhor aproveitamento da geração fotovoltaica e eólica pode ser muito interessante para o futuro do setor elétrico. Essa estratégia aumenta a eficiência do sistema como um todo, reduz desperdícios, melhora o aproveitamento da rede e cria condições para integrar maior volume de renováveis com menor custo global.
Para o consumidor, isso pode significar acesso a energia mais competitiva em determinados horários e regiões; para o sistema, significa maior flexibilidade e menor necessidade de soluções mais caras. Em um cenário de crescente diversificação da matriz, a agenda regulatória deveria avançar não apenas na expansão da oferta, mas também na criação de mecanismos que valorizem a flexibilidade do consumo como parte da solução elétrica.