Comercializadora de energia: riscos para os consumidores

Comercializadora de energia: riscos para os consumidores

O Grupo Safira iniciou um processo de mediação com credores como etapa preparatória para uma eventual recuperação extrajudicial. A companhia atribui a situação à forte volatilidade dos preços de energia, à redução da liquidez do mercado e ao aumento dos custos necessários para reposicionar suas posições contratuais.

Com atuação tanto na comercialização quanto na geração de energia, a Safira também participou de leilões e realizou vendas de contratos para distribuidoras que atendem o mercado regulado. Segundo informações de mercado, o processo de mediação pode anteceder outras medidas de reestruturação financeira. As dificuldades da companhia, entretanto, já vinham sendo acompanhadas pelo mercado há aproximadamente um ano.

O episódio se soma aos problemas enfrentados recentemente por outras empresas de comercialização de energia, entre elas Tradener, Electra, Diferencial Energia, Elétron e IBS Energy, Gold, Boven, além da Matrix, que passou por processo de reestruturação financeira. Embora cada caso tenha características próprias, a recorrência desses eventos chama atenção para os riscos associados à atividade de comercialização em um ambiente de maior volatilidade, diferentes preços entre submercados e o novo perfil dos preços horários do PLD.

As mudanças observadas no mercado nos últimos anos aumentaram a complexidade da gestão das carteiras de energia. A maior participação de fontes intermitentes, especialmente solar e eólica, alterações na formação de preços, episódios de elevada volatilidade e a redução dos limites de crédito disponibilizados por agentes de mercado passaram a exigir estruturas mais robustas de gestão de risco, liquidez e capital.

Para os consumidores, esses episódios trazem uma mensagem importante: a escolha de uma comercializadora não deveria ser orientada exclusivamente pelo preço da energia, pelas condições comerciais oferecidas ou pelo relacionamento. A solidez financeira da contraparte, sua política de gestão de riscos, estrutura de capital, governança e capacidade de atravessar períodos de elevada volatilidade precisam fazer parte da avaliação. Uma diferença aparentemente pequena no preço contratado pode não compensar o risco de ter de substituir contratos em condições adversas de mercado caso a contraparte enfrente dificuldades financeiras.

Esse ponto ganha ainda mais importância à medida que cresce o mercado livre. Para uma empresa consumidora, contratar energia significa assumir também um risco de contraparte durante todo o prazo do contrato. Quanto mais longo o PPA e maior o

volume contratado, maior pode ser a exposição econômica diante de uma eventual inadimplência. Por isso, processos de contratação deveriam incorporar análise de crédito, definição de limites de exposição, garantias adequadas, mecanismos de proteção contratual e, dependendo do porte da carteira, diversificação entre fornecedores.

A expansão do mercado livre trouxe competição, novos produtos e oportunidades importantes de redução de custos. Mas também tornou a gestão de energia mais próxima de uma atividade de gestão financeira e de riscos. Preço continua sendo fundamental. Mas preço sem avaliação de risco pode transformar uma economia contratada em uma exposição muito maior no futuro.

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