ONS acompanha El Niño e seus impactos na operação do sistema elétrico
A configuração do El Niño em junho passou a exigir acompanhamento mais atento pelo ONS, especialmente diante da perspectiva de intensificação do fenômeno ao longo dos próximos meses. Embora seus efeitos sobre o sistema elétrico brasileiro não sejam uniformes entre os subsistemas, o fenômeno tende a alterar padrões relevantes de precipitação, temperatura e afluências, com impactos potenciais sobre a operação energética, a formação de cenários hidrológicos e a gestão de riscos no segundo semestre.
O El Niño deve ser analisado como evento climático que agrega incertezas para a segurança operativa e para a programação da operação. Seus efeitos costumam ser mais perceptíveis nas regiões Sul, Norte e Nordeste, podendo influenciar o regime de chuvas, a vazão dos rios e a recomposição dos reservatórios. No Sul, a tendência de chuvas acima da média entre julho e setembro pode favorecer afluências em bacias relevantes, contribuindo para a disponibilidade hídrica regional. No Norte e no Nordeste, por outro lado, eventuais alterações no regime de precipitação podem exigir maior cautela na avaliação das condições hidrológicas e da complementaridade entre fontes.
No Sudeste e Centro-Oeste, o El Niño não necessariamente determina o início ou o encerramento do período úmido, mas pode contribuir para temperaturas acima da média e maior frequência de ondas de calor. Esse ponto merece atenção porque temperaturas elevadas pressionam a carga, sobretudo pelo aumento do uso de sistemas de refrigeração, ao mesmo tempo em que podem ampliar a volatilidade da demanda ao longo do dia. Em um sistema com participação crescente de fontes renováveis variáveis e geração distribuída, a combinação entre maior carga térmica, variação de irradiância, hidrologia incerta e necessidade de reserva operativa tende a tornar a operação mais complexa.
A meu ver, o principal desafio não está em tratar o El Niño como um fator isolado, mas em incorporá-lo de forma integrada aos modelos de previsão de carga, afluência, armazenamento e despacho. O acompanhamento climático precisa dialogar com a operação em tempo real, a política de uso dos reservatórios, o acionamento térmico, os intercâmbios entre subsistemas e a formação de preço. Em um mercado cada vez mais sensível a variações hidrológicas e meteorológicas, a qualidade da leitura climática passa a ser componente essencial da segurança energética e da racionalidade econômica da operação.