Quem ganha e quem perde com a nova geopolítica global do petróleo

Quem ganha e quem perde com a nova geopolítica global do petróleo

A interrupção no fornecimento global de petróleo pelos produtores tradicionais, associada à crise no Estreito de Ormuz e à guerra no Irã, redesenha a lógica da segurança energética mundial. O choque não afeta todos os países da mesma forma: os impactos dependem do grau de dependência de importações, da origem do suprimento, da existência de estoques estratégicos, da capacidade de refino e da flexibilidade para substituir petróleo por outras fontes de energia.

A Ásia aparece como a região mais vulnerável, especialmente porque depende fortemente do petróleo do Oriente Médio. Países como Índia, Japão, Bangladesh, Paquistão, Sri Lanka e Laos enfrentam consequências distintas, que vão desde aumento de inflação e pressão fiscal até medidas concretas de racionamento, redução de deslocamentos e restrições de consumo.

Os Estados Unidos estão em posição relativamente mais confortável, em razão do crescimento da produção doméstica de petróleo e gás, especialmente após a revolução do xisto. Ainda assim, nem mesmo o maior produtor mundial está imune aos preços internacionais, pois o petróleo continua sendo uma commodity global, com reflexos diretos sobre gasolina, inflação e renda disponível das famílias.

Canadá e México vivem situações diferentes. O Canadá tende a se beneficiar da alta de preços por ser grande exportador de petróleo e gás, enquanto o México fica mais exposto por depender de importações de derivados, como gasolina e diesel. O choque reforça, para ambos, a importância de diversificar mercados, rotas de exportação, capacidade de refino e fontes internas de suprimento.

A América do Sul e Central são apresentadas como regiões com relevância estratégica crescente. Apesar da dependência de derivados importados, países como Brasil, Guiana, Argentina e Suriname podem atrair mais investimentos por oferecerem produção fora da zona de risco de Ormuz. A Venezuela surge como uma incógnita, com potencial de retomada, mas ainda cercada por riscos políticos e operacionais.

A China é tratada como um caso de resiliência estratégica. Embora seja grande importadora líquida de petróleo e sofra com preços mais altos, Pequim possui estoques relevantes, capacidade de administrar refinarias e uma estratégia de longo prazo baseada em eletrificação, fontes não fósseis, veículos elétricos e soberania tecnológica. A crise, portanto, tende a validar e acelerar a direção já escolhida pela política energética chinesa.

A Índia, por sua vez, aparece mais vulnerável que a China, pois importa quase todo o petróleo que consome e dependia fortemente de barris que passavam por Ormuz. Ainda assim, o país possui mais capacidade fiscal, estoques e diversificação do que vizinhos mais pobres. No longo prazo, a resposta indiana deve combinar diversificação de fornecedores com aceleração de energia solar, baterias, veículos elétricos e ferrovias.

O Japão está altamente exposto, por ser pobre em recursos naturais e muito dependente de importações energéticas marítimas. A crise reforça a necessidade de estoques estratégicos, eficiência energética, retomada de parte da geração nuclear, expansão de renováveis offshore, armazenamento e maior flexibilidade do sistema elétrico. Mesmo assim, sua vulnerabilidade estrutural às importações permanece.

A Rússia e alguns exportadores de petróleo aparecem como potenciais vencedores de curto prazo, beneficiados pela alta dos preços. No caso russo, o ganho fiscal pode aliviar pressões econômicas, mas esse benefício pode ser temporário, diante de sanções, ataques à infraestrutura e dificuldades de investimento e tecnologia. Já países do Golfo com rotas alternativas a Ormuz, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, ficam melhor posicionados que Iraque, Kuwait e Catar.

A conclusão central é que a crise tende a acelerar uma nova ordem energética baseada em diversidade, resiliência e redução de vulnerabilidades geopolíticas. Países ricos buscarão diversificar oferta, ampliar estoques e acelerar alternativas ao petróleo; países pobres, com menor capacidade fiscal, tenderão a priorizar soluções mais baratas, ainda que menos seguras. A grande lição é que segurança energética depende de produção, controle de rotas, estoques, tecnologias, fontes substitutas e capacidade de adaptação diante de choques globais.

Publicação do Wall Street Journal.

Jason Bordoff é diretor fundador do Center on Global Energy Policy e professor de prática profissional na School of International and Public Affairs da Universidade Columbia, além de ex-diretor sênior da equipe do Conselho de Segurança Nacional dos EUA e assistente especial do ex-presidente Barack Obama.

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