Brasil pode ser hub de data centers, mas precisa decidir agora!
Abel Holtz e Carlos Alberto Schoeps
A 1ª Revisão Quadrimestral das Previsões de Carga para o Planejamento da Operação Energética 2026–2030, elaborada por EPE, ONS e CCEE, traz um sinal claro de mudança estrutural no setor elétrico brasileiro. O país já possui 22 pedidos de acesso à Rede Básica associados a contratos para data centers, dos quais 18 já estão autorizados para conexão. A carga prevista para esses projetos pode sair de 304 MW médios em 2026 para 3.500 MW médios em 2030. Trata-se de um novo vetor de crescimento do consumo de energia, com características muito diferentes da carga tradicional.
Data centers exigem fornecimento contínuo, elevado padrão de confiabilidade, segurança operacional e infraestrutura digital compatível com operações críticas. Essa nova carga impõe uma reflexão mais ampla sobre planejamento energético, expansão da transmissão, disponibilidade de potência e qualidade do suprimento.
O Brasil tem vantagens relevantes para atrair esse tipo de investimento, especialmente por contar com uma matriz elétrica de elevada participação renovável. No entanto, a expansão dos data centers não pode ser atendida com a continuidade do modelo atual baseado predominantemente em fontes renováveis intermitentes. Eólicas e solares são fundamentais, mas não entregam, sozinhas energia para sustentar cargas críticas e intensivas em energia.
A implantação de data centers em escala relevante exigirá uma mudança na forma de construir a matriz elétrica brasileira. O país precisará combinar renováveis com fontes capazes de assegurar atendimento ao consumo de base, flexibilidade operativa e estabilidade sistêmica. Isso pode envolver hidrelétricas com capacidade de regularização, térmicas flexíveis, usinas nucleares, usinas a gás natural e outras soluções capazes de garantir energia disponível quando o sistema efetivamente precisa. A agenda precisa ser “mais energia renovável, firme, confiável e integrável ao sistema”.
Há uma oportunidade relevante para o Brasil, mas ela não se materializará automaticamente. O país pode se posicionar como destino competitivo para data centers, combinando energia de baixo carbono, disponibilidade territorial, conectividade e ambiente regulatório estável. Mas, para isso, precisará transformar potencial em execução: planejamento coordenado, regras claras de conexão, sinal econômico adequado e uma matriz elétrica preparada para atender cargas intensivas com padrão elevado de segurança.
Ao mesmo tempo, a discussão industrial e tributária não pode ser ignorada. No centro da disputa estão as big techs, que preferem importar servidores montados, muitas vezes associados a arquiteturas proprietárias e componentes de alto valor, como GPUs. A exigência de comprovação de inexistência de similar nacional, necessária para determinados tratamentos tarifários, cria um impasse prático: para demonstrar a ausência de concorrência local, as empresas precisariam abrir especificações técnicas que frequentemente compõem seu segredo industrial.
A controvérsia em torno da Resolução Camex nº 852 expõe esse conflito. De um lado, empresas representadas pela Brasscom argumentam que o aumento de impostos sobre servidores montados encarece a instalação de novos data centers e pode reduzir a atratividade do Brasil frente a outros mercados. Entidades como a Abinee defendem a medida como forma de corrigir distorções e proteger a produção nacional. O governo, por sua vez, sustenta que a elevação tarifária busca fortalecer a indústria brasileira.
Essa disputa revela uma tensão legítima, mas que precisa ser enfrentada com pragmatismo. Se o objetivo for atrair data centers, desenvolver infraestrutura digital e capturar investimentos bilionários, o país precisa evitar que a política industrial inviabilize a política de atração tecnológica. Por outro lado, também não faz sentido transformar o Brasil apenas em destino de consumo de equipamentos importados, sem qualquer estratégia de adensamento produtivo, capacitação tecnológica ou desenvolvimento local.
O desafio é construir uma política integrada. A pauta dos data centers está no cruzamento entre energia, indústria, infraestrutura digital, soberania tecnológica e desenvolvimento regional. O Brasil tem condições de participar dessa nova economia, mas precisará alinhar incentivos fiscais, planejamento energético, expansão da rede, política industrial e segurança regulatória.