Quem paga pela prudência do setor elétrico? Entenda o debate do CVaR
Abel Holtz e Carlos Alberto Schoeps
A discussão sobre o CVaR é técnica, mas tem uma consequência muito concreta: ela influencia quanto o consumidor paga pela energia. O governo federal adiou a decisão sobre eventual mudança nos parâmetros de aversão ao risco usados nos modelos de operação do setor elétrico e, por ora, manteve a configuração atual, conhecida como CVaR 15/40. Essa escolha define o quanto o modelo deve se preocupar com cenários hidrológicos ruins e, portanto, o quanto deve antecipar o despacho de usinas térmicas para preservar os reservatórios.
O CVaR é um mecanismo usado para tornar a operação do sistema mais segura diante de cenários adversos. Ele dá peso aos piores cenários da hidrologia. No CVaR 15/40, o modelo considera os 15% piores cenários hidrológicos e atribui a eles um peso de 40% na decisão. Os demais 60% correspondem aos cenários simulados para o futuro. Quanto maior o segundo número, maior é a importância dada aos cenários críticos.
A diferença entre CVaR 15/40, CVaR 15/35 e CVaR 15/30 está no grau de aversão ao risco. Todos consideram a mesma “cauda” de risco, ou seja, os 15% piores cenários. O que muda é o peso atribuído a esses cenários na decisão do despacho das usinas hidrelétricas. No 15/40, a operação é mais conservadora; no 15/35, há uma redução moderada da aversão ao risco; e no 15/30, o modelo passa a dar menos peso aos cenários ruins.
Essa diferença afeta diretamente o mercado. Um CVaR mais alto, como o 15/40, tende a aumentar o chamado “valor da água” nos reservatórios. Isso significa que o modelo passa a enxergar a água armazenada como um recurso mais valioso e, portanto, evita usá-la no presente. Para preservar os reservatórios, o sistema aciona mais usinas térmicas preventivamente. Como a geração térmica costuma ser mais cara, o custo da operação aumenta e esse custo chega ao consumidor por meio do PLD, das bandeiras tarifárias e dos preços dos contratos de energia.
Uma configuração como o CVaR 15/30 tende a dar menor peso aos cenários críticos, o modelo pode usar mais geração hidrelétrica e reduzir o custo de operação no curto prazo. Agentes do mercado defendem que a migração para o CVaR 15/30 poderia gerar economia relevante. Para o consumidor, o efeito esperado seria uma conta de energia menor, desde que essa redução de aversão ao risco não comprometa a segurança do suprimento.
Não existe parâmetro “gratuito”. O CVaR 15/40 aumenta a prudência operacional, mas tende a encarecer a energia. O CVaR 15/30 pode reduzir custos, mas também diminui a proteção preventiva contra cenários hidrológicos mais severos. O CVaR 15/35 aparece como uma alternativa intermediária: reduz parte do custo associado ao excesso de conservadorismo, mas preserva uma dose maior de cautela do que o 15/30.
A questão que precisa ser respondida é qual entrega a melhor relação entre custo e benefício para a sociedade. Se o sistema estiver em boas condições, com reservatórios confortáveis, manter um CVaR muito elevado pode significar apenas energia mais cara, sem ganho proporcional de segurança. Nesse caso, o consumidor paga por uma prudência que talvez não se converta em benefício físico relevante.
Em momentos de maior estresse hidrológico, um CVaR mais elevado pode ter justificativa. Ele preserva água nos reservatórios e reduz a probabilidade de decisões tardias que poderiam expor o sistema a maior risco de déficit. No entanto, é preciso destacar que aversão ao risco não cria energia nova nem elimina restrições físicas, apenas altera a forma como o sistema decide usar os recursos disponíveis.
A calibragem do CVaR deve ser analisada com transparência, comparando o custo adicional imposto aos consumidores com o ganho efetivo de confiabilidade para o sistema. Um parâmetro mais conservador só se justifica se demonstrar benefício concreto em termos de segurança energética. Caso contrário, a prudência operacional pode se transformar em custo excessivo na conta de luz, sem que ocorra uma contrapartida proporcional em redução de risco.