China perde espaço no petróleo da Venezuela e vê investimento em risco
Quando a Venezuela expulsou grandes petrolíferas americanas no ciclo de nacionalizações de quase duas décadas atrás, a China ocupou rapidamente esse espaço. Por meio de joint ventures com a PDVSA, as estatais Sinopec e CNPC passaram a deter direitos sobre cerca de 4,4 bilhões de barris de petróleo venezuelano, e Pequim consolidou sua posição como principal compradora externa do país. Em 2025, as exportações venezuelanas para a China chegaram a uma média de 642 mil barris por dia, algo como 75% do total exportado, além de servirem, em parte, para amortizar a dívida venezuelana com credores chineses, estimada em torno de US$ 10 bilhões.
Esse espaço, porém, entrou em zona de risco em 2026. A política americana para o setor petrolífero venezuelano mudou de forma brusca, com novas autorizações mais amplas para negócios com a PDVSA e com a reabertura do país a operadores internacionais sob supervisão de Washington. Ao mesmo tempo, a Venezuela aprovou uma reforma petrolífera que amplia a autonomia de parceiros privados, enquanto Chevron e Shell avançam em novos projetos de óleo e gás. Nesse novo arranjo, a presença chinesa deixou de ser uma posição consolidada e passou a depender, em grande medida, das condições impostas pelos Estados Unidos e da reorganização institucional do setor venezuelano.
Os efeitos já apareceram no fluxo comercial. Em janeiro de 2026, a carga venezuelana em trânsito para a China caiu para cerca de 166 mil barris por dia, muito abaixo da média do ano anterior, e a própria PetroChina decidiu evitar compras de petróleo venezuelano negociado sob controle americano. Pequim reagiu publicamente, afirmando que seus direitos e interesses legítimos na Venezuela precisavam ser preservados. Isso mostra que a disputa deixou de ser apenas comercial e passou a ser geopolítica. A Venezuela se tornou mais um ponto de competição direta entre China e Estados Unidos pela influência sobre reservas, contratos, rotas e receitas petrolíferas.
Ainda assim, a China não foi removida do tabuleiro. Ela continua sendo credora relevante, mantém ativos importantes e segue como peça central na história recente do petróleo venezuelano. Mas seu poder de barganha já não é o mesmo. Em março de 2026, as exportações totais da Venezuela voltaram a superar 1 milhão de barris por dia, impulsionadas mais por Chevron, grandes tradings e vendas para Índia e Caribe do que pelo antigo eixo Caracas–Pequim. A aposta chinesa na Venezuela, construída durante anos de isolamento ocidental, continua valiosa, mas agora está muito mais vulnerável à nova correlação internacional de forças.