Efeito das térmicas de reserva de capacidade nos preços de energia

Efeito das térmicas de reserva de capacidade nos preços de energia

As termelétricas de reserva de capacidade, que precisam de horas para sair do mínimo técnico e atingir a potência nominal, e suas inflexibilidades operativas são hoje um dos fatores mais relevantes para explicar por que os preços de energia no mercado livre (ACL) permanecem elevados no curto e no médio prazos, mesmo em cenários de forte expansão da geração solar. Na prática, essas usinas funcionam como a “ponte de confiabilidade” entre a abundância de energia fotovoltaica no meio do dia e o pico de consumo da noite, influenciando diretamente o PLD horário e, por consequência, os prêmios de risco embutidos nos contratos bilaterais.

O ponto central é que muitas térmicas operam com restrições físicas e contratuais que limitam sua flexibilidade: rampa máxima de subida e descida (MW/h), potência mínima, tempos mínimos ligado/desligado, além de custos de partida e parada. Quando a geração solar cai rapidamente no entardecer, a dinâmica típica da “curva do pato”, o sistema precisa substituir, em poucas horas, um volume expressivo de energia e ainda atender a carga elevada do início da noite. Como a térmica não consegue “aparecer” instantaneamente no nível de potência necessário, o operador e os modelos de otimização são obrigados a acioná-la e rampá-la com antecedência, horas antes do pico, mesmo quando a solar ainda está alta. Esse acionamento antecipado altera a referência de custo do sistema: nas horas que antecedem o entardecer, a usina marginal deixa de ser a renovável barata e passa, com frequência, a ser a térmica em rampa, trazendo para o PLD o custo variável do combustível, os custos operativos e o efeito das inflexibilidades.

Esse mecanismo ajuda a entender por que o PLD horário não “cola” de forma sistemática no piso regulatório, mesmo com sobreoferta e elevada geração solar ao meio-dia. O preço não sobe apenas quando a solar desaparece; ele sobe quando o sistema precisa começar a “construir” a rampa térmica para assegurar atendimento seguro da carga no período noturno. Soma-se a isso a aversão ao risco na operação, que tende a preservar armazenamento hidráulico e reduz a disposição do modelo em substituir completamente a térmica por hidráulica/solar no curto prazo. O resultado é um padrão recorrente: horas centrais do dia com preços mais baixos, seguidas de elevação gradual no fim da tarde e picos nos horários de maior carga e menor disponibilidade solar.

Para o mercado livre de energia, a consequência é objetiva e relevante para decisões de contratação. Estratégias de compra não podem partir da premissa simplificada de que “solar + sobra = preço baixo” de forma contínua: a volatilidade intradiária, puxada pela necessidade de potência firme e pela rampagem das térmicas, cria prêmios de risco que aparecem no spot e são internalizados nos preços de contratos no ACL, especialmente em produtos de curto prazo e nas negociações de médio prazo com modulação e garantias.

Em termos práticos, quanto maior a dependência do sistema de térmicas com rampa longa para atravessar o entardecer, maior a tendência de sustentação de preços e de valorização de flexibilidade (contratos modulados, gestão de exposição e soluções como armazenamento e resposta da demanda), tornando o comportamento horário um componente decisivo do custo efetivo de energia no ACL.

Na experiência internacional, regiões com alta concentração de energia solar vêm enfrentando a “curva do pato” combinando flexibilidade operativa, sinais econômicos mais granulares e reforços de rede para reduzir picos de preço e riscos de confiabilidade. Mercados como Califórnia (CAISO), Austrália (NEM) e partes da Europa ampliaram a resposta com baterias (BESS) e serviços ancilares de rápida entrega, ajustaram regras para remunerar capacidade e flexibilidade (incluindo produtos de rampa e reservas) e aprofundaram a adoção de tarifas horárias e preços intradiários, incentivando o deslocamento de consumo para o meio do dia e penalizando a ponta do início da noite.

Paralelamente, aumentaram investimentos em transmissão e interligações regionais, melhoraram a previsão e o despacho de renováveis, e incorporaram tecnologias de grid-forming e controle de tensão para suportar a operação com alta participação de inversores. Em conjunto, essas medidas atacam o problema em três frentes: absorver excedentes solares, entregar potência firme no entardecer e reduzir a volatilidade do preço de energia; tornando a gestão da curva do pato um eixo central do desenho de mercado e do planejamento em sistemas com forte penetração fotovoltaica.

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