O leilão de capacidade 2026 pode estar custando caro demais
O Leilão de Reserva de Capacidade de março de 2026 pode ser entendido como necessário sob a ótica do Sistema Interligado, na medida em que busca contratar potência e flexibilidade para um sistema elétrico cada vez mais dependente de fontes intermitentes. Para os consumidores permanece uma dúvida sobre o resultado econômico do leilão. O problema não está na necessidade de confiabilidade, mas na forma como essa conta vem sendo construída: transfere-se para a carga um encargo elevado, de longa duração, com benefício de difícil percepção direta na conta de energia mensal.
O caso da UTE Norte Fluminense é emblemático. A usina estava descontratada após o término de vigência de seu contrato no mercado regulado e foi uma das vencedoras no último leilão de capacidade. Está sendo contratada praticamente no teto revisado do produto, em patamar que, na prática, se aproxima muito mais da lógica de remuneração de um empreendimento novo do que da recontratação de um ativo existente, maduro e sem investimento incremental relevante.
É justamente aí que surge a principal crítica. A Norte Fluminense é um empreendimento implantado no início dos anos 2000, que já está em grande parte amortizado. Trata-se de uma usina madura, cujo investimento já foi substancialmente recuperado ao longo do contrato anterior. Nesse contexto, recontratá-la em condições próximas às de uma usina nova parece um sinal econômico inadequado. O razoável, sob a ótica da modicidade tarifaria, seria esperar um forte deságio em relação ao ciclo contratual anterior, refletindo a necessidade de baixo CAPEX adicional e o menor risco econômico do empreendimento.
E o mais preocupante é que esse movimento não parece isolado. Outros ativos existentes também foram recontratados com investimento incremental nulo ou muito baixo e preços próximos aos tetos revisados, reforçando a percepção de que o leilão acabou funcionando não apenas como instrumento de confiabilidade, mas também como mecanismo de reprecificação favorável de usinas legadas.
Para o mercado consumidor o ponto central é que esse leilão não deveria servir de justificativa para remunerar ativos antigos como se ainda estivessem em fase de recuperação do investimento. O que se conclui é que uma necessidade do sistema foi transformado em um vetor de sobrecusto estrutural para os consumidores, com benefício expressivo para os investidores desses empreendimentos.