Energia como Ativo Tokenizado

Energia como Ativo Tokenizado

Bruno Alves dos Santos e Carlos Alberto Schoeps

A eletricidade gerada por usinas solares e eólicas passou a atrair cada vez mais investidores no mundo todo. Isso acontece porque esses projetos, quando bem estruturados, podem funcionar como ativos de longo prazo, com receitas relativamente previsíveis. Na prática, muitas usinas renováveis vêm sendo tratadas de forma parecida com um imóvel para renda: são ativos físicos, com vida útil longa, capazes de gerar um “fluxo mensal” por meio de contratos de venda de energia.

Ao longo do século XX, o setor elétrico foi associado a estabilidade e forte presença do Estado, com investimentos financiados por tarifas reguladas e dívida de longo prazo. Nos últimos anos, porém, a combinação de digitalização, novos modelos de contratação e finanças estruturadas mudou esse cenário. A energia passou a ser vista não só como um insumo para a economia, mas também como um ativo com características financeiras claras: previsibilidade de receita, possibilidade de garantias e estruturação de instrumentos para atrair capital.

A comparação com o mercado imobiliário não é apenas retórica. Assim como um prédio comercial gera receita por meio de aluguéis, uma usina pode gerar receita por meio de contratos de compra e venda de energia de longo prazo (PPA’s). Em geral, esses projetos têm três atributos que chamam a atenção do investidor: tangibilidade, porque a usina é um ativo físico; fluxo recorrente, porque os PPAs funcionam como “aluguéis” e, muitas vezes, são corrigidos por inflação; e horizonte longo, porque contratos de 15 a 30 anos criam estabilidade semelhante à de ativos patrimoniais. Por isso, fundos de pensão, seguradoras e investidores de longo prazo frequentemente enxergam esses projetos como parte de um portfólio de renda.

Essa lógica já gerou um movimento consolidado: a securitização de recebíveis de energia. Instrumentos como FIDCs e debêntures de infraestrutura permitem transformar receitas futuras (por exemplo, as do PPA) em títulos financeiros que podem ser comprados por investidores. Isso tende a aumentar a liquidez do setor e, em muitos casos, reduzir o custo de capital para viabilizar novos projetos. Em termos simples: a usina “anteciparia” parte do valor do fluxo futuro ao vender esse direito de recebimento a investidores, com regras e garantias definidas.

A próxima etapa, ainda em amadurecimento, é a tokenização de ativos energéticos, que usa blockchain para registrar frações de um ativo ou de uma receita como “tokens” digitais. Do ponto de vista técnico, isso já é possível, mas no mercado ainda está em fase de pilotos e depende de regulação mais clara. A proposta é permitir um fracionamento muito maior do investimento. Em tese, pessoas e instituições poderiam deter pequenas parcelas da receita de uma usina, com registro digital, rastreabilidade e liquidação automatizada. Já existem iniciativas internacionais que testaram partes dessa lógica. como tokenização de certificados e pilotos de recebíveis, enquanto no Brasil o tema aparece em discussões e projetos que envolvem evolução regulatória e infraestrutura financeira.

Apesar do potencial, é importante tratar a tokenização com objetividade. Ela pode trazer benefícios como maior liquidez, novas formas de captação, redução de custo de financiamento e criação de mercados secundários mais amplos. Ao mesmo tempo, abre riscos que precisam ser endereçados: assimetria de informação, separação excessiva entre “valor financeiro” e “ativo físico”, e temas de segurança cibernética e governança. Por isso, o avanço tende a ocorrer em etapas, com integração entre regulação do setor elétrico e do mercado financeiro.

O setor elétrico está vivendo duas camadas ao mesmo tempo. A primeira, já estabelecida, é a transformação de receitas de energia em instrumentos financeiros tradicionais (como debêntures e FIDCs). A segunda, ainda em construção, é a digitalização desse mesmo conceito via tokens e blockchain. O ponto central é simples: uma usina continua sendo um ativo físico regulado, mas suas receitas podem ser estruturadas e negociadas de formas cada vez mais sofisticadas. O movimento é real, mas não acontece de uma vez; ele avança conforme surgem padrões, segurança jurídica e interoperabilidade entre o sistema financeiro e o setor elétrico.

O encontro entre infraestrutura física e ativos digitais redefine fronteiras institucionais. Hoje, o mesmo ativo, uma usina solar, pode existir simultaneamente como bem físico regulado pela ANEEL, ativo financeiro supervisionado pela CVM e ativo digital rastreado em blockchain. Essa sobreposição exige integração regulatória inédita, pois a linha entre energia física e título financeiro torna-se difusa.

Contudo, é fundamental distinguir entre o que é tecnologia existente e o que é tendência emergente. Hoje, o mercado vive uma fase de transição: o lastro físico (energia) e o lastro digital (tokens) começam a convergir, mas ainda sem fusão plena. A energia, antes monopólio técnico, está se tornando um ativo líquido, rastreável e globalmente negociável. É o início de uma nova etapa da economia, marcada pela materialização financeira da geração de energia.

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