Data Centers: uma demanda muito forte a considerar no planejamento
Os data centers são centrais de computação responsáveis por processar e armazenar grandes volumes de dados, viabilizando serviços como armazenamento de dados, aplicativos de streaming, jogos online, mineração de bitcoins e aplicações de Inteligência Artificial, utilizadas diariamente por milhões de pessoas.
O Brasil tem experimentado um crescimento significativo no número de data centers, consolidando-se como um importante hub na América Latina. Entre 2013 e 2023, o número de data centers no país aumentou 628%, fazendo do Brasil o líder da região e atraindo cerca de 40% dos novos investimentos.
Consumo de Energia pelos Data Centers
Essas instalações são grandes consumidoras de energia elétrica. De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), os data centers consumiram, em 2022, aproximadamente 1,5% da energia global, e esse consumo deve mais do que dobrar nos próximos três anos. A demanda típica de um data center utilizado para IA supera os 100 MW.
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Desafios no Planejamento de Expansão de Data Centers
Para atender a essa nova carga em rápida expansão, será necessário investir na construção de novas usinas e, principalmente, na expansão do sistema de transmissão para conectá-las ao Sistema Interligado Nacional. Dada a sua magnitude, o atendimento a essas unidades deve ser contemplado nos estudos de planejamento de expansão realizados pelos Grupos de Estudo de Transmissão (GET), coordenados pela EPE.
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A Expansão e os Novos Paradigmas de Geração de Energia
O maior desafio dos planejadores será compatibilizar a velocidade de expansão dos data centers com os prazos exigidos para a implantação de novas usinas geradoras e reforços nos sistemas de transmissão.
Com a maior inserção de fontes de geração intermitente, como a eólica e a solar, e a redução da capacidade de regularização das usinas hidrelétricas, surgem novos paradigmas para o planejamento e operação do sistema frente ao consumo dos data centers. Novas usinas flexíveis precisarão ser implantadas para atendê-las.
Como exemplo, pode-se citar que um datacenter pode ser implantado em até 3 anos, a ampliação dos sistemas de transmissão, que é mais crítico, leva, tipicamente de 3 a 5 anos, se não depender de leilões para expansão da rede. A implantação de usinas mais flexíveis também pode levar até 5 anos.
Desafios nos Estados Unidos
Nos Estados Unidos, especialistas têm criticado a capacidade das instalações de geração e de transmissão de energia para atender aos data centers. Dois pontos são destacados pelos especialistas: as redes de transmissão estão envelhecidas, sendo necessário um amplo programa de retrofit; há limitações na capacidade de geração para atender a esses novos consumidores, exigindo novos investimentos em usinas não interruptíveis.
A crescente demanda por energia, impulsionada pelo crescimento da IA, está sobrecarregando o sistema, podendo gerar instabilidades em determinados horários. Também está em pauta a reativação de usinas nucleares para atender esses consumidores de maneira segura e confiável. Mesmo com essa expansão da geração, há preocupações quanto ao atendimento dos datacenters nos momentos em que tais usinas param para manutenção – programada ou intempestiva.
Oportunidades e Desafios no Brasil
No Brasil, vivemos um momento particularmente favorável. Temos capacidade excedente de geração em algumas localidades, onde a geração é maior que o consumo, mas há restrições nas redes de transmissão para distribuir essa energia. Com um programa bem estruturado, o país pode atrair mais investimentos nessa área para aproveitar esse recurso disponível, oferecendo energia barata e renovável.
Essa nova demanda pode ser considerada uma forma de industrialização do país. Os data centers vão exigir mão de obra especializada para sua construção, operação e manutenção, além de possibilitar a produção local de diversos componentes. Também pode ser importante para expansão da infraestrutura de telecomunicações para atender às novas demandas de tráfego de dados.
Adicionalmente, abre-se a oportunidade para o desenvolvimento de uma indústria de softwares e profissionais especializados no treinamento de IA, gerando empregos qualificados.
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Desafios para a Expansão da Infraestrutura Elétrica

Para explorar essa possibilidade, há necessidade de enfrentar vários desafios: a expansão das redes elétricas e da geração em velocidade compatível às necessidades e oferecer energia a preços competitivos. Os encargos setoriais e a carga de impostos são pontos que precisam ser enfrentados para que o país não perca essa corrida pelo desenvolvimento tecnológico.
Mesmo considerando a atual taxa de câmbio, os custos de energia, em US$/MWh, quando se considera as despesas com uso de redes de transmissão e distribuição, com energia, com encargos e incluindo os impostos, o valor para os datacenters é significativamente mais alto que o praticado em outros países. Esse será um dos fatores decisivos na tomada de decisão dos investidores.
Os data centers são uma parte fundamental do futuro tecnológico, e o Brasil está em uma posição estratégica para se beneficiar dessa demanda mundial crescente. Contudo, será necessário que as autoridades olhem esse tema com bastante cuidado para garantir que a expansão da infraestrutura energética, os investimentos e o desenvolvimento de mão de obra qualificada acompanhem o ritmo de expansão.
Autores
Abel Holta e Carlos Alberto Schoeps
Especialistas no mercado livre de energia