Eventos climáticos na distribuição: experiência internacional
Abel Holtz e Carlos Alberto Schoeps
A experiência internacional mostra que interrupções associadas a tempestades e ventos fortes são tratadas menos como um “evento elétrico” isolado e mais como um evento urbano multissetorial, em que o desempenho final (tempo de recomposição e impacto ao consumidor) depende de coordenação, logística e preparação. Países e estados com histórico recorrente de temporais, como EUA (Flórida, Texas, Nordeste), Canadá, Japão e alguns mercados europeus, evoluíram para modelos de resposta que combinam planejamento prévio, protocolos de comando unificado, gestão de vegetação, tecnologias de rede e acordos operacionais com órgãos públicos.
Um ponto central é a adoção de estruturas formais de coordenação de crise. Nos EUA, por exemplo, é comum o uso do Incident Command System (ICS), que cria uma cadeia de comando clara e integra concessionária, defesa civil, polícia, bombeiros, trânsito e prefeituras em um único “centro de operações”. Isso reduz atrasos por dependência de terceiros: a limpeza de vias, remoção de árvores, bloqueios, rotas de acesso. Liberação de áreas e comunicação pública passam a seguir um plano único, com prioridades definidas (hospitais, água/esgoto, telecom, corredores de mobilidade, abrigos e subestações). Em paralelo, muitas distribuidoras mantêm planos de tempestade com gatilhos objetivos: nível de vento/chuva, densidade de chamadas, falhas por alimentador, que antecipam mobilização e acionamento de fornecedores e órgãos parceiros.
Outro pilar é a assistência mútua e a preparação logística. Em mercados maduros, distribuidoras firmam acordos para receber rapidamente equipes de outras regiões e pré-posicionam materiais críticos (postes, cabos, transformadores, chaves, religadores) em “áreas preparadas” próximas aos pontos vulneráveis. Isso encurta o tempo entre o evento e o início efetivo dos reparos. Também é comum a integração de gestão de tráfego: rotas dedicadas para equipes, credenciais de acesso emergencial, liberação rápida de estacionamento em locais críticos e protocolos para remoção de veículos que bloqueiam a operação.
Na frente preventiva, a prática internacional converge para programas robustos de manejo da vegetação e gestão de faixa de servidão, com ciclos regulares de inspeção e poda, critérios técnicos por espécie e distância, e monitoramento dos locai onde quedas de árvores são recorrentes. Em alguns mercados, a regulação reforça isso por metas de desempenho e auditorias. Além disso, há uma estratégia seletiva de reforços das redes em vez de enterrar os cabos (caro e lento). Prioriza-se o enterramento ou reforço em trechos críticos como alimentadores de hospitais, centros de operação, áreas com histórico de queda de árvores, com o uso de postes mais resistentes, cabos protegidos, espaçadores, cruzetas reforçadas, aumento de seccionamento e automação para reduzir o número de clientes afetados por cada falha.
A modernização tecnológica tem papel decisivo na redução do tempo de recomposição. Muitos mercados adotaram integração entre OMS (Outage Management System), SCADA, sensores, telemetria e medição inteligente para localizar falhas com mais precisão e operar manobras remotas, com isolamento e recomposição parcial sem deslocamento físico imediato. Complementam isso com georreferenciamento de ativos, despacho otimizado por roteirização, drones e inspeção aérea pós-evento, além de painéis em tempo real para priorização de serviços essenciais e comunicação com autoridades.
Na esfera regulatória, a experiência internacional normalmente combina incentivos de qualidade com reconhecimento prudente de custos extraordinários. Ou seja, o regulador cobra desempenho (duração de interrupções longas, reincidência por circuito), aplica penalidades quando há falhas de gestão e manutenção, mas também define regras para eventos severos e para recuperação de custos emergenciais mediante auditoria e comprovação. Isso incentiva preparação e evita a lógica de “reagir sempre”, que costuma ser mais cara para o consumidor.
A principal lição é que a redução do impacto ao consumidor depende menos de tratar o temporal como exceção e mais de estruturar um modelo permanente de resiliência urbana: coordenação formal com municípios e órgãos de emergência, acesso garantido para equipes, gestão de vegetação com governança clara, reforço seletivo de rede, automação para reduzir abrangência das falhas e transparência regulatória sobre metas, desempenho e custos. É esse conjunto, e não uma única medida, que, em geral, separa sistemas que “colapsam operacionalmente” após eventos comuns do clima tropical daqueles que conseguem recompor com previsibilidade e menor dano social.