PLD baixo e curtailment alto: oportunidade para consumo flexível e interruptível

PLD baixo e curtailment alto: oportunidade para consumo flexível e interruptível

Carlos Alberto Schoeps

Com base nos dados de setembro/2025, o acompanhamento horário do curtailment deixa um recado claro: a restrição de geração se concentra nas janelas de maior disponibilidade de energia renovável e, por consequência, coincide com os menores patamares intradiários do PLD. Isso mostra que o “vale” de preços do dia está associado ao excesso estrutural de oferta em determinadas horas, somado a limitações de escoamento. Ou seja, o curtailment não é a causa primária do PLD baixo, mas sim o sintoma de não absorver toda a energia de custo marginal baixo disponível.

Eólicas (EOL). A restrição aparece praticamente ao longo de todo o dia, mas tem maior intensidade entre 06h30 e 18h. A janela de sobreoferta começa cedo, ainda no início da rampa de carga, e se estende até o fim da tarde. Esse intervalo coincide com os menores níveis de PLD, sugerindo uma dinâmica em que a disponibilidade eólica, com maior peso no submercado NE, contribui para manter preços deprimidos durante grande parte do período diurno. Do ponto de vista econômico, essa combinação (curtailment alto + PLD baixo) evidencia desperdício de energia barata.

Solares (UFV). Aqui o curtailment se concentra entre 07h e 17h, com pico próximo ao meio-dia, refletindo a maior irradiação. É exatamente nesses horários que o PLD tende a registrar seus menores valores do dia. Essa característica tende a se intensificar com a expansão de UFVs no SE/CO e no NE. Mais energia entrando na mesma faixa horária aumenta a probabilidade de despacho limitado, reforçando o vale de preços e aumentando a volatilidade entre horas. Em termos de sinal econômico, a energia solar vai “barateando” o miolo do dia, mas deixa mais evidente a necessidade de flexibilidade para o pós-sol.

Consolidado UFV + EOL. Quando se olha o total, o sistema passa a exibir uma “assinatura intradiária” marcada: (i) um vale de PLD nas horas de alta oferta renovável (manhã/tarde), acompanhado de curtailment elevado; e (ii) uma rampa de alta do PLD no fim da tarde/início da noite, quando a geração cai e a carga permanece. A flexibilidade do sistema passa a ser mais exigida.

O curtailment elevado indica que estamos perdendo energia justamente quando ela seria mais barata e isso aumenta a relevância de soluções de flexibilidade: otimização operativa, armazenamento (BESS) e gestão de demanda para capturar o excedente.

Além das soluções do lado da oferta e da rede, há uma oportunidade igualmente relevante do lado da demanda: a criação de produtos de energia voltados ao consumo em horários pré-determinados, ancorados na instalação de cargas e equipamentos flexíveis capazes de deslocar consumo para as janelas de excedente renovável. Varias soluções são disponíveis: fornos elétricos; caldeiras elétricas, refrigeração, resfriamento, bombeamento, compressores entre outros.

Para destravar esse potencial, seria necessário evoluir a estrutura de precificação, tanto do produto quanto dos sinais horários do PLD, de modo a tornar explícito o valor econômico dessas horas de sobreoferta e estimular consumidores a enxergarem essa janela como uma oportunidade recorrente de redução de custo e contratação eficiente de energia.

Nesse contexto, vale destacar um ponto adicional: com o nível de curtailment verificado, abre-se espaço para observar valores de PLD ainda mais baixos nas horas de excesso — inclusive recolocando o debate sobre a revisão do conceito de PLD mínimo como um mecanismo de sinalização mais aderente à realidade de excedentes. Um piso de preço muito “alto” em um cenário de sobreoferta persistente pode reduzir a capacidade do PLD de refletir, com granularidade, o excedente efetivo do sistema.

A possibilidade de preços mais baixos nessas janelas tenderia a atrair consumo interruptível e modulável, acelerando o desenvolvimento de um mercado de flexibilidade do lado da demanda, com consumidores sendo remunerados, direta ou indiretamente, para consumir quando há sobra.

O padrão horário observado em setembro/2025 aponta para um mercado em que o PLD está cada vez mais “guiado” pela disponibilidade renovável intradiária, ampliando spreads horários e transferindo valor para ativos e estratégias que entreguem flexibilidade. Para geradores e consumidores, isso exige incorporar curtailment e perfil horário de PLD no desenho contratual (hedge, sazonalização/horas, garantias) e, para o planejamento setorial. A agenda de expansão não pode ser apenas de MW instalados, mas de MW que efetivamente atendem mercado e de MWh que podem ser deslocados no tempo, seja por armazenamento, seja por produtos e cargas flexíveis orientadas a preço.

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