Eventos climáticos severos: problema da distribuidora?
Abel Holtz e Carlos Alberto Schoeps
Eventos meteorológicos severos como vendavais, tempestades intensas e enchentes localizadas sempre fizeram parte da realidade de países tropicais como o Brasil. O que mudou, de forma mais perceptível para o consumidor, foi a maior densidade populacional nas cidades, a expansão urbana e a crescente dependência de energia elétrica para atividades essenciais: comunicação, trabalho, saúde, segurança, mobilidade e abastecimento. Em um ambiente urbano mais adensado, qualquer interrupção tem efeito multiplicado. Ou seja, mais pessoas por quilômetro quadrado, mais cargas sensíveis e mais serviços críticos dependentes de continuidade. Ainda que tempestades e ventos fortes sejam recorrentes, o impacto social e econômico das faltas de energia tende a ser mais alto porque a infraestrutura urbana e o padrão de consumo se tornaram mais vulneráveis ao desligamento.
No segmento de distribuição, a vulnerabilidade é amplificada pelo fato de grande parte da rede ser aérea, exposta a quedas de galhos e de árvores, objetos lançados pelo vento e alagamentos que comprometem postes e equipamentos. Além disso, políticas urbanas que incentivam o plantio de árvores sob redes elétricas, quando não acompanhadas de critérios técnicos de espécie, poda preventiva e responsabilidade de manutenção, aumentam o risco de contato com condutores e de desligamentos. Soma-se a isso a insuficiência de manutenção contínua (poda, inspeção, substituição de componentes, recomposição de isolação), o que faz com que eventos relativamente comuns produzam efeitos desproporcionais na continuidade do serviço. Muitas ocorrências não são explicadas apenas pela força do temporal, mas pela combinação entre desenho de rede, gestão de vegetação, ocupação urbana e práticas de manutenção.
Outro fator frequentemente subestimado na duração das interrupções é a dificuldade logística de acesso das equipes de manutenção às áreas afetadas, especialmente em centros urbanos. Mesmo quando a falha é localizada e tecnicamente simples, o tempo de recomposição pode se alongar por conta do trânsito intenso, bloqueios viários e queda de árvores que obstruem ruas e impedem a chegada das equipes de campo. Soma-se a isso o problema recorrente de veículos estacionados próximos a trechos de rede com necessidade de intervenção, que dificultam isolamento da área e montagem do canteiro de trabalho.
Em eventos severos, a falta de coordenação operacional com órgãos de trânsito, defesa civil, bombeiros, prefeituras e concessionárias de telecom também gera atrasos, porque a distribuidora depende de liberação de vias, remoção de árvores, sinalização e, em alguns casos, desligamentos coordenados para atuação conjunta. Esse conjunto de fricções urbanas explica por que, para o consumidor, a percepção de “demora” muitas vezes não decorre apenas do reparo elétrico em si, mas de um encadeamento de restrições de acesso e governança que tornam a recomposição mais lenta e custosa.
Esse diagnóstico reforça porque o tema da resiliência passou a ganhar centralidade na agenda regulatória. A ANEEL vem discutindo medidas para elevar a capacidade de resposta das concessionárias, mas a solução não é apenas elétrica. Ela exige planejamento integrado, com regras claras de manejo arbóreo, licenciamento de poda, acesso a áreas críticas, priorização de corredores de serviço essencial e protocolos de resposta coordenada. Modernização de rede (automação, religadores, seccionamento, telecontrole, redundâncias e reforço de subestações) é parte importante, mas perde eficácia se não vier acompanhada de governança urbana para reduzir as causas recorrentes de falha.
Nesse contexto, propostas como aprimorar a comunicação com consumidores, fortalecer a coordenação com governos locais, revisar planos de contingência e definir metas mais objetivas de restabelecimento podem trazer ganhos relevantes, desde que associadas a incentivos corretos para investimento e manutenção. A discussão também precisa incorporar critérios de custo-benefício: redes mais resilientes e melhor preparadas para contingências exigem investimento, e isso deve ser equilibrado com modicidade tarifária e sustentabilidade das concessões. Em síntese, a tendência é que o consumidor continue percebendo mais os efeitos das interrupções não porque ventos fortes viraram novidade, mas porque as cidades estão mais densas, a rede é mais exposta, a arborização urbana nem sempre é compatível com a infraestrutura elétrica, e a sociedade se tornou muito mais dependente de energia, exigindo um salto de coordenação, manutenção e planejamento para reduzir a recorrência e a duração das faltas.